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A computação quântica já não pertence ao futuro: ela está entre nós, ainda silenciosa, mas inevitável. No campo da Justiça, representa mais do que uma inovação tecnológica — é um convite filosófico à transformação do próprio modo de julgar.
Ao contrário da lógica binária que sustenta o Direito há séculos — o sim ou o não, o legal ou o ilegal —, a lógica quântica opera com superposições, incertezas e múltiplas possibilidades coexistentes. Ela não busca apenas respostas rápidas, mas a compreensão profunda do contexto, das consequências e dos vínculos ocultos entre os fatos. E é exatamente disso que o sistema de Justiça brasileiro mais precisa.
Vivemos há décadas sob o peso de uma Justiça morosa, excessivamente formal, muitas vezes distante da realidade social que deveria transformar. Agora, temos a chance de atravessar esse paradigma — com coragem, lucidez e compromisso democrático. A tecnologia quântica pode oferecer ao Judiciário a capacidade de simular cenários complexos, projetar impactos e propor soluções com um grau de precisão e sensibilidade inédito. Isso não é ficção científica: já há, hoje, capacidade técnica para que um único computador quântico processe a integralidade da carga judicial brasileira em tempo real.
Mas essa travessia exige cuidado. Exige regulação, ética e institucionalidade. Exige que a Justiça continue sendo humana, mesmo quando assistida por máquinas. Caberá ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) liderar essa transição, garantindo que todos os tribunais — dos grandes aos mais modestos — tenham acesso equitativo a essa nova arquitetura. Mais ainda: que nenhum direito seja atropelado em nome da eficiência.
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), por sua vez, terá papel decisivo. Deverá ser a guardiã da soberania do cidadão sobre o algoritmo. Defender o contraditório, exigir a explicabilidade das decisões automatizadas, promover formação técnica para os operadores do Direito e evitar que a tecnologia se torne um novo instrumento de exclusão.
O momento pede grandeza institucional. Por isso, proponho três passos concretos:
É verdade que há riscos: viés algorítmico, desigualdades tecnológicas, opacidade nos critérios de decisão. Mas o maior risco é ficarmos parados. A tecnologia não espera. O tempo da Justiça não pode mais esperar.
A computação quântica é um caminho — e um caminho sem volta. Se soubermos atravessá-lo com responsabilidade, sensibilidade e inteligência coletiva, ele poderá nos conduzir a um sistema de Justiça mais ágil, mais justo e mais capaz de acolher a complexidade da vida como ela é.
Jorge Tardin
Advogado, professor e tesoureiro da OAB/Búzios
jorge@tardin.com.br
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