Cadê o país do fome zero?

Cadê o país do fome zero?

Um dos maiores produtores do mundo está novamente na rota da fome. Essa taxativa afirmação descortina a realidade de um país que estava fora do chamado Mapa da Fome desde 2014. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) estudou os dados de 2001 a 2017 mostrando que, no percurso de 15 anos, o Programa Bolsa Família reduziu vertiginosamente a pobreza em 15% e a pobreza extrema em 25% no Brasil.

Para melhor entendermos, é preciso contextualizar o que significa de fato ser considerado extremamente pobre e pobre no Brasil. É tido em situação de pobreza extrema, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quem dispõe necessariamente de menos de R$ 151,00 por mês. A pobreza, por sua vez, é caracterizada por aqueles que vivem com menos de R$ 436,00 mensais, conforme o Relatório Síntese de Indicadores Sociais apurados pelo IBGE em 2019, que fora concluído e divulgado em 2020.

Você já parou para pensar o que pode estar acontecendo com as famílias brasileiras em meio à pandemia do coronavírus? De maneira pragmática e sem romantizar as palavras, até porque não é poético o cenário que estamos vivendo, lhe digo: o número de pessoas que atualmente vivem abaixo da linha da pobreza triplicou, perfazendo a infeliz marca de 27 milhões de sujeitos; isto é, constitui 12,8% da população da nossa amada pátria mãe gentil.

Gentil para quem? Pois o levantamento feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) assinala que milhares de famílias se esforçam para sobreviver com a importância de R$ 246,00 por mês. Seguramente nossa pátria não está sendo generosa, tampouco uma servidora altiva com sua população. Por isso pergunto: caro leitor deste artigo, conseguiria você sobreviver com este valor por mês?

Para enfrentarmos esse problema, precisamos imediatamente admitir que a autorregulação do mercado e o conceito de menos Estado são uma equação promotora de pobreza que amplifica as disparidades sociais. Isso mesmo, esse tal de mercado que para os ricos desse país é etéreo, no entanto para a esmagadora população é o purgatório e o calabouço da fome. Para a verdadeira massa da população brasileira, o chamado mercado é aquele que pode ser entendido popularmente a partir da poesia interpretada pelo querido Zeca Pagodinho, com a música Caviar: “nunca vi, nem comi, eu só ouço falar”. 

Ora, é notório por especialistas e também por aqueles que vivem na pele a dor da fome que os altíssimos níveis de desemprego e a inexistência de políticas públicas de enfrentamento às desigualdades sociais dificultam o acesso à renda, transportando o Brasil para o pior cenário de desumanidade, irresponsabilidade política e governamental possível.

O que gostaria de mostrar é que a pobreza e a desigualdade social não são estáticas. É por esse motivo que a oferta de auxílio emergencial não moverá o beneficiário para uma mudança concreta, nem mesmo momentânea, pois a proposta apresentada não se adequa à sua capacidade de perceber e aproveitar o benefício. Portanto, gerará frustrações de ambos os lados e resultados distorcidos não aderentes aos objetivos e metas estabelecidas pelo governo.

Leia também: Quebra de patentes como forma de democratização do tratamento contra o câncer

O fracasso social e o aumento da fortuna dos mais ricos

  Allan Borges é Mestre em Bens Culturais e Projetos Sociais pela FGV.

 

 

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Tribuna da Imprensa Digital e é de total responsabilidade de seus idealizadores.

Por em 27/04/2021

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