Cresce busca por habeas corpus para cultivo de Cannabis para uso medicinal

Habeas corpus para cultivo caseiro de Cannabis

Cresce busca por habeas corpus para cultivo de Cannabis para uso medicinal

(Folhapress) – O STJ (Superior Tribunal de Justiça) recebeu em 2024 ao menos 384 processos relacionados a pedidos de habeas corpus para cultivo caseiro de Cannabis para fins medicinais. O número é o maior dos últimos quatro anos e representa um aumento de 2.158% em relação a 2020, quando ao menos 17 ações do tipo chegaram ao STJ, de acordo com o tribunal.

O habeas corpus para cultivo caseiro de Cannabis é uma medida judicial que protege o beneficiado contra uma eventual sanção criminal, evitando que ele seja preso ou tenha suas plantas apreendidas após uma denúncia, por exemplo.

Esse foi o caminho escolhido por Camila Brogliato, 42, para continuar seu tratamento para alívio dos sintomas de endometriose e de bruxismo causado por ansiedade. Estudos têm mostrado a potência de canabinoides como CBD (canabidiol) e THC (tetrahidrocanabinol), substâncias presentes na maconha, no tratamento de diversas condições clínicas, como epilepsia e dor crônica.

“Ainda que estejamos falando de uma questão de saúde, alguém pode enquadrar isso como um crime relacionado a drogas”, afirma Henderson Fürst, advogado e presidente da Comissão Especial de Bioética da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil – São Paulo).

Antes de entrar com o pedido na Justiça, Camila, que trabalha com marketing e comunicação, importava óleo de CBD, o que lhe custava muito caro um frasco de óleo de CBD de 30 ml pode custar, em média, R$ 900, dependendo da cotação do dólar.

“Essa ação judicial [pedido de habeas corpus] é quase um grito de socorro”, afirma Lucas Grisolia Fatali, advogado de Camila, que atua em casos relacionados a Cannabis desde 2021, em 14 estados do país ?são mais de 300 casos apenas em São Paulo.

Para importar o óleo também é necessária uma autorização da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), processo que pode ser demorado. Em 2024, a agência recebeu 167.337 pedidos de autorização, número que vem crescendo ao longo dos anos. Em 2015, quando o CBD foi retirado da lista de substâncias proibidas, foram registradas apenas 850 solicitações.

Ao fazer o pedido de habeas corpus, Camila precisou apresentar diversos documentos, entre eles o atestado de que é paciente medicinal, com prescrição médica; comprovantes dos valores pagos pelos produtos importados; laudo agronômico sobre a quantidade de Cannabis necessária para a produção do próprio óleo e comprovação de que possui condições de cultivar a planta com segurança.

Em maio de 2024, ao dar entrada no processo, mesmo com toda a documentação necessária, a juíza de primeira instância negou o pedido, argumentando que a via judicial não seria a correta. O advogado, então, recorreu da decisão.

“O STJ já entende há bastante tempo que o caminho correto para solicitar esse direito é por meio do habeas corpus. Mas alguns juízes de primeira instância ainda afirmam que o procedimento deve ser feito via Anvisa”, diz Fatali.

A decisão favorável veio em novembro de 2024. Com o habeas corpus, Camila pode cultivar 126 plantas de Cannabis por ano e importar 164 sementes para seu próprio tratamento.

Para Fürst, é fundamental que haja uma uniformização do entendimento dos tribunais. “Isso servirá para evitar essa incerteza jurídica, em que alguns [juízes de primeira instância] aceitam e outros, não, obrigando os pacientes a recorrer.”

Um dos organizadores do livro “Direito da Cannabis”, Fürst diz acreditar que o aumento dos pedidos de habeas corpus está diretamente ligado ao acesso à informação. “As pessoas passaram a conhecer casos de pacientes que tiveram grandes melhorias no tratamento de dores, convulsões e outras condições, o que impulsionou essa demanda.”

Cannabis medicinal

Habeas corpus para cultivo caseiro de Cannabis é uma medida judicial que protege o beneficiado contra uma eventual sanção criminal.

A maconha tem estado cada vez mais presente nos debates públicos no Brasil. Em junho do ano passado, após nove anos de um julgamento arrastado, o STF descriminalizou o porte de maconha para uso pessoal, estabelecendo um limite de 40 gramas ou seis plantas fêmeas de Cannabis.

Essa decisão, contudo, não garante automaticamente o direito ao cultivo para fins medicinais.

Para o advogado Lucas Grisolia Fatali, o Brasil precisa avançar na regulamentação do cultivo e permitir que empresas nacionais plantem Cannabis em solo nacional, o que reduziria os custos dos remédios nas farmácias. “O uso da Cannabis e de outras plantas medicinais já está previsto no Código Penal há mais de 40 anos. O problema é que ainda falta regulamentação.”

Por Ultima Hora em 15/02/2025

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