Engenharia genética – A realidade que promete a cura para a síndrome de Down

Engenharia genética – A realidade que promete a cura para a síndrome de Down

No final da década de 80 eu estava aprovada para cursar Ciências Biológicas na UFRJ e tudo o que eu queria era fazer o bacharelado em genética para seguir a carreira de engenheira genética, mas isso era muito futurístico e depois eu me encontrei na carreira acadêmica, onde estou muito feliz. Mas o futuro chegou, de verdade! O momento da história da biologia molecular que abriu as portas para aplicações em medicina, agricultura e pesquisa científica aconteceu em 2012, graças ao trabalho pioneiro das cientistas Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna, que foram as responsáveis por descobrir como adaptar o sistema imunológico bacteriano CRISPR para cortar e modificar DNA de maneira direcionada e precisa. A técnica de edição genética é chamada CRISPR-Cas9.

Nas bactérias, CRISPR é um local no DNA (locus) onde a bactéria guarda fragmentos do DNA de um vírus bacteriófago que recentemente a atacou. É como um banco de memórias dos invasores. A bactéria expressa o locus CRISPR, gerando moléculas de RNA que são correspondentes ao DNA dos vírus armazenados. Esses RNAs, chamados de RNAs-guia servem como sensores para identificar invasores futuros. Quando o mesmo tipo de vírus tenta infectar a bactéria novamente, as moléculas de RNA-guia se unem a uma proteína chamada Cas (geralmente, Cas9). Essa combinação forma um complexo que patrulha o DNA da célula. Se o complexo encontrar uma sequência de DNA que corresponda ao RNA-guia (ou seja, o DNA do vírus invasor), a proteína Cas corta o DNA do vírus, neutralizando a ameaça.

Desde o trabalho pioneiro de Charpentier e Doudna, muitos outros trabalhos surgiram e elas ganharam nobel em Química em 2020 e, no mês passado, foi publicado um trabalho muito animador com a promessa da futura cura para a síndrome de Down, ou trissomia do 21. O artigo foi publicado na PNAS Nexus (https://doi.org/10.1093/pnasnexus/pgaf022) por pesquisadores japoneses. Para essa pesquisa, os cientistas pegaram fibroblastos (células comuns do tecido conjuntivo) de pacientes com síndrome de Down e induziram a sua transformação em células-tronco pluripotentes (iPSCs). Também criaram RNAs-guia que eram complementares ao cromossomo 21 e conseguiram inserir esses RNAS-guia, juntamente com a proteína Cas-9 que é a proteína que vai cortar o DNA alvo, e conseguiram eliminar o cromossomo a mais da síndrome de Down num sistema in vitro. 

Apesar da técnica CRISPR-Cas9 estar revolucionando a biotecnologia e a medicina, permitindo manipulações genéticas precisas e eficientes, a aplicação clínica ainda requer estudos adicionais para garantir a segurança e a eficácia dos procedimentos. Mas, de qualquer forma, a notícia é muito animadora e existem grandes chances de, num futuro breve, podermos intervir tão positivamente na vida desses pacientes.

.Profª. Drª. Adriana Pedrenho

Departamento de Ciências Fisiológicas, UFRRJ

Idealizadora da Nave Química FisiológicLla

 

 

Por Ultima Hora em 28/03/2025

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